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terça-feira, 5 de maio de 2009

Luzes, câmera, pregação! Princípios, meios e fins da homilética espetacular

Luzes, câmera, pregação! Princípios, meios e fins da homilética espetacular
Por: Luiz Carlos Ramos

Introdução

A prática homilética 1 contemporânea é moldada pela sociedade do espetáculo. A base principal dessa sociedade espetacular é a economia de mercado globalizada aliada aos meios eletrônicos de comunicação de massa e à tecnologia da informação, de onde surge o seu principal produto: a indústria do entretenimento. Nessa sociedade, dá-se, sistematicamente, o processo de degradação do ser para o ter e do ter para o parecer (por exemplo: já não basta ser rico e ter dinheiro, é preciso parecer rico e parecer ter muito dinheiro).
Os meios eletrônicos, tais como o rádio, a TV e a Internet são, basicamente, instâncias recreativas, instrumentos de diversão, parques de entretenimento. Como meios espetaculares, representam (encenam) a realidade. Não são a realidade, mas refletem imagens do real, como espelhos (specculum). A fruição dessa não-realidade implica na alienação da vida, ainda que por alguns instantes, pela contemplação da representação do real que se vê nas telas e monitores, ou que se ouve dos receptores de rádio. Essa suspensão da existência é precisamente o sentido da palavra entretenimento: ter + entre. Abre-se um parênteses na vida real, para que se possa assistir a vida representada. Por que isso acontece, isto é, por que as pessoas abrem esses parênteses em suas vidas com freqüência cada vez maior, não cabe aqui discutir. O fato é que assim é.

Princípios homiléticos espetaculares

Os princípios espetaculares regem a homilética espetacular. Enquanto, na homilética convencional, as bases da prédica são as teologias bíblica, sistemática e pastoral, por meio dos processos exegéticos, hermenêuticos e retóricos, na homilética espetacular, essas bases são outras. Primeiramente, em lugar da exegese, que seria o processo pelo qual o intérprete visita o texto bíblico em busca de sua história e do seu sentido primeiro, a homilética espetacular prefere a eisegese, que é o processo pelo qual o intérprete projeta sobre o texto as suas próprias idéias. Isso porque a história como memória significativa de um povo não interessa para o mundo do espetáculo. Este, ao contrário se alimenta do novidoso. A história só interessa enquanto servir para os propósitos da indústria do entretenimento. Por exemplo: a história do Dia Internacional da Mulher, não interessa à mídia como história da conscientização de pessoas a partir de uma tragédia que vitimou 129 mulheres operárias, na cidade de Nova Iorque, no dia 8 de março de 1857. Por isso, sem pudor, a publicidade aproveita a ocasião para vender lingerie, cosméticos e outros artigos de moda. O espetáculo refaz a história segundo os seus próprios interesses, num procedimento eisegético sistemático.
Em segundo lugar, enquanto a homilética convencional, mediante o procedimento hermenêutico, procura atualizar a mensagem do texto bíblico à luz da tradição e do testemunho acumulado historicamente pela Igreja, a homilética espetacular opta pela “pesquisa de opinião”. A homilética, para subsistir no mundo do espetáculo, precisa agradar às massas. Deve, portanto, oferecer não o que a massa precisa, mas o que ela quer. Se, em outros tempos havia um compromisso de coerência com o que os pregadores supunham ser a verdade, no mundo da mídia, a verdade é a opinião pública, o “Ibope”. Como se trata de um empreendimento demasiadamente oneroso, a homilética da mídia não pode se dar ao luxo de dispensar audiência. Para tanto, procede à constante monitoração desta, e reformula sua proposta de acordo com a adesão conquistada. Em uma palavra, a hermenêutica da mídia é determinada pelos órgãos de pesquisa de opinião pública que medem os índices de audiência e de prestígio dos programas veiculados pela mídia. Daí a necessidade dessa homilética de trabalhar com os mesmos mecanismos de sedução da mídia: o apelo ao narcisismo, os estereótipos, o mecanismo de transferência de valores e o fascínio das estrelas, para mencionarmos apenas alguns.
Finalmente, em lugar da retórica sagrada, que se encarrega de traduzir em acontecimento a intenção do pregador ou pregadora — na forma de desafios concretos para a transformação ou confirmação de valores com vistas a um futuro melhor —, na homilética espetacular, essa escatologia é substituída pela ansiedade imediatista do aqui e agora. Assim como não interessa ao espetáculo o passado, tampouco interessa o futuro. Para a sociedade do espetáculo, tudo é um eterno presente. Assim, alimenta-se de uma vertiginosa enxurrada de eventos (por exemplo: as Olimpíadas devem dar lugar à Copa do mundo, que deve dar lugar às eleições presidenciais, que devem dar lugar às comemorações natalinas, etc., etc.). Não se deve esperar para consumir amanhã o que se pode consumir hoje. A expectativa do celeste porvir, das antigas tradições cristãs, dá lugar ao imediato labor pela satisfação iminente das aspirações de prosperidade e sucesso.

Meios homiléticos espetaculares

Além dos princípios, deve-se pensar a respeito dos meios homiléticos espetaculares. Ora, o meio privilegiado pela homilética convencional é o da alocução, isto é, o processo oral-verbal pelo qual a palavra se torna acontecimento. No caso da homilética espetacular, a palavra deve dar lugar à imagem, e o processo oral-verbal, ao imagético-visual. No primeiro caso, a principal ferramenta persuasiva é a recorrência à metáfora, que, dentre as figuras de linguagem, é a que mais tem a capacidade de sensibilizar o corpo, mas sempre a partir de um disparo intelectual, de um estimulo racional. No caso do espetáculo, o principal elemento de sedução é a metonímia, processo pelo qual se pode tomar a parte pelo todo. Assim se dá o processo de enquadramento das câmeras (de TV, de cinema, da web...): elas selecionam o assunto, deixando, propositalmente, de fora o que não interessa. Esse processo gestáltico de seleção (e, por conseguinte, de exclusão) não está imune às ideologias, antes se presta muito a servi-la. A imagem metonímica, ao contrário da metáfora, faz o caminho do coração para o cérebro, isto é, primeiramente se “sente” uma imagem, depois (às vezes muito depois) se pensa sobre ela.
Como o papel da mídia, numa sociedade espetacular comandada pelo mercado, é vender produtos, a metonímia imagética torna-se muito útil, pois uma pessoa é convertida em consumidor não pela razão, mas pela emoção. Se o indivíduo pensar muito ele não compra, principalmente os produtos supérfluos. Mas, como já foi dito alhures: a propaganda é a arte de fazer o cliente comprar o que não precisa, com o dinheiro que ele não tem. E isso só acontece por impulso. Depois da compra é que o consumidor parará para pensar (e amargar) a sua impulsividade.
Dessa forma, enquanto a homilética convencional se ocupa, principalmente do significado (conteúdo), a homilética espetacular se concentra no significante (forma). O conteúdo espetacular se constitui de mera desculpa para a elaboração de um invólucro atrativo, sedutor, irresistível, capaz de valorizar (atribuir valor) e precificar o seu produto.

Fins homiléticos espetaculares

Também é preciso que se analisem os fins da homilética espetacular. Segundo o filósofo e cineasta francês Guy Debord, o fim do espetáculo é o próprio espetáculo, que deve constantemente se retroalimentar, pois ele se consome a si mesmo. O espetáculo vive de si mesmo. Note-se a freqüência com que programas da mídia são montados em cima de suas próprias personagens (estrelas). A mídia, constantemente noticia a própria mídia, entrevista a própria mídia, elabora documentários sobre a própria mídia, num verdadeiro círculo vicioso de autopromoção. Daí a frequência dos apelos dos telepregadores para que seus telespectadores contribuam para a manutenção do programa. O objetivo é manter o programa no ar, e é por isso que ele vai ao ar: para ficar no ar.
Ora, a homilética convencional enquadrava suas prédicas nas categorias discursivas aristotélicas, a saber: o discurso judiciário, pelo qual se interpreta e julga-se sobre o passado (procedimento exegético); o discurso demonstrativo, pelo qual se expõe sobre a relevância ou não de certa questão (procedimento hermenêutico), pelo qual algo deve ser louvado ou criticado no presente; e, finalmente, o discurso deliberativo, pelo qual se decide a respeito do futuro (processo retórico), se algo deve ou não ser implementado, deve ou não ser realizado, e de como isso se dará.
Por sua vez, para alcançar seus fins, a homilética espetacular adota outras categorias, oriundas do teatro: a comédia e a tragédia (e suas derivações). Nesses gêneros teatrais, as emoções são preponderantes. O riso e o choro purgam o indivíduo de suas próprias misérias. Pelo riso, o desgraçado alivia suas penas, e pelo choro o abastado se penitencia das injustiças por ele cometidas.
Da combinação da tragédia e da comédia nasceu o drama. Nessas categorias, joga um papel particularmente importante a música. Não somente como prelúdio e poslúdio, mas como trilha sonora e parte integrante da cena.
Portanto, a homilética que melhor se adéqua aos meios eletrônicos de massa é aquela carregada de forte teor emocional, que tem a capacidade de provocar na sua audiência, alternadamente, o riso e, principalmente com o concurso da música, produzir o choro. Há uma dependência crescente da música, no processo discursivo, particularmente o religioso, contemporâneo.

Conclusão

Concluindo, a prédica espetacular desafia a homilética convencional, na medida em que se apresenta como fenômeno aliado à ideologia hegemônica do espetáculo-mercado. É a pregação da massificação e do lucro sobrepujando a prédica da resistência e da graça.
Os protestantes vivem hoje o que a Igreja cristã experimentou no século IV, sob Constantino: uma religião outrora minoritária e de proscritos, de repente se torna religião oficial e hegemônica. Em lugar de perseguição, passou a ser vantajoso ser cristão. Assim também os evangélicos brasileiros vivem um processo de constantinização espetacular: outrora proscritos e minoritários, começam a experimentar a notoriedade e a celebridade.
Nem a homilética da idade mídia, nem a da Idade Média tem como foco principal os intersujeitos comunicantes. A primeira se ocupa do significante (da forma) enquanto a segunda, do significado (conteúdo). Ainda é preciso desenvolver uma homilética da Idade Humana, e que, por isso mesmo, seja humanizada e humanizante, menos preocupada com os meios e as técnicas e mais voltada para a experiência relacional e vital entre as pessoas em diálogo, cujas palavras sejam inspiradas pela Palavra de Deus.


Aonde isso nos levará são cenas dos próximos capítulos...

Luiz Carlos Ramos, doutor em ciência da religião, pastor metodista e profesor da Faculdade de Teologia Metodista de São Bernardo do Campo

A Homilética é a disciplina teológica que trata dos discursos religiosos. É, portanto, uma meta-ciência, que discursa analítica e criticamente sobre os discursos que são pronunciados no contexto das comunidades de fé.

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