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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Não fazemos qualquer negócio

Não fazemos qualquer negócio


É mera repetição dizer que vivemos sobre a influência do mercado. Num dia desses assisti pela televisão uma reportagem sobre pais que remuneram os filhos para os pequenos serviços da casa – arrumar a cama, preparar a refeição, limpar o quarto e coisas afins. Segundo eles, esta prática desperta as crianças para a vida, à dinâmica do receber proporcionalmente pelo que se faz, do ganho e da perda.

O mercado permeia a vida. Dentro e fora de casa, vivemos como vítimas de suas tensões. De certa maneira, estamos cotados, diariamente, como que numa bolsa de valores, que pesa, remunera e cobra tudo o que fazemos.

Entre créditos e débitos, existem poderes que nos regem… se temos, exigimos, se devemos, lamentamos. “Quem tem mais, chora menos”… esta é a lei. Isto nos confunde como um todo, inclusive nossa devoção.

A religião em tempos pós-modernos serve como moeda de domínio e, pasmem, inclusive de Deus. Quem tem muita fé, obrigatoriamente precisa ter resultados, porque a “fé de mercado” é regulamentada por certas normas, por exemplo: que quem “paga o preço”, exige. Se a pessoa paga a Deus seus débitos – orando, jejuando e participando de reuniões – ela tem o “direito” de alguns favores; afinal, o mercado se caracteriza por troca.A nova lógica é que o/a “crente” acumula saldos diante do Altíssimo e, no devido tempo, cobra.

O que coloca em cheque esse mercado da fé são as provações. Diante delas, geralmente as pessoas encontram duas saídas: considerá-las como pecado – débito – ou como ameaça da concorrência – o diabo.

Os imprevistos, na lógica do mercado, devem ser previstos. Mas na vida, e de forma mais evidente, na fé, existem causas imprevistas e inexplicáveis, não processáveis pela cartilha da “fé de troca”, de direitos adquiridos.

Quando fatos naturais a qualquer pessoa – afinal, segundo o próprio Cristo, Deus “… faz o sol nascer sobre maus e bons” (Mt 5.45) – surpreende os alicerces dessa fé que só vive por decretos e exigências, a “bolsa quebra” e os argumentos faltam.

Talvez nesta hora seja necessário evocar o drama de Paulo, que admitiu ter um espinho incurável, a amargura de Jó, que viu sua vida ruir, ou mesmo a dor de Estevão diante da morte. Existem momentos em que a fé foge à razão do mercado e, ao contrário dele, conclui-se que não fazemos qualquer negócio.

Aliás, me parece que ter a noção de que não se faz qualquer negócio é a grande tônica do evangelho de Cristo. Quando mais consciência disso se tem, mais força e valor – que contradição com o “evangelho” que se escreve nos tempos atuais!

A lei que contraria o mercado e nos lembra de nossa fragilidade é, no meu modo de ver, a possibilidade da dependência, da humildade, da disposição de andar segundas, terceiras milhas. Parece-me que é assim que nos livramos da arrogância do mais forte, do determinismo do intolerante, do devaneio do autoritário.

Quando leio sobre o Cristo da cruz e me lembro do mercado, fico em crise. Porque um me leva para o auto-sacrifício, o outro para a queda de braços, um me remete ao oferecimento, o outro para o ganho próprio… um para os outros, o outro, para mim mesmo.

Lamento que o mercado venha abarcando nossa vida de maneira tão poderosa e que não existam muitas esperanças de evitá-lo. Espero que a fé volte logo para a cruz e que voltemos a ser uma contracultura, tal como eram nossos pais… que voltemos a ter, novamente, nossas próprias referências… sem medo de ser sal – que mesmo em pouca quantidade, faz-se notar – e luz, que esclarece, que ilumina sem alardes. Que tenhamos pudor para não fazer qualquer negócio em nome de nossa fé.

Na graça e na paz,



Rev. Nilson da Silva Jr, pastor da Catedral Metodista de Piracicaba, SP

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