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sexta-feira, 4 de março de 2011

Contação de História – o que é isso?

Contação de História – o que é isso?


Do "blog do filósofo" http://ghiraldelli.pro.br

Os cineastas estão sempre procurando o que chamam de “uma boa história”. Isso é o pão dos cineastas. Por isso, eles lêem muito os jornalistas e os escritores de romances e novelas. Às vezes, eles procuram os historiadores. Todavia, uma gama enorme de profissionais das letras é desprezado por eles: filósofos, sociólogos, psicólogos, antropólogos e até mesmo historiadores – os mais acadêmicos, digamos assim. Os cineastas não esperam encontrar “uma boa história” exatamente no lugar que seria, por definição, a fábrica de boas histórias – a universidade.
A universidade deveria ser a fábrica de boas histórias por uma questão de lei. Afinal, para ser doutor, o professor universitário (ao menos no Brasil) precisa fazer primeiramente o mestrado. No mestrado, o produto final não é uma “tese” e, sim, uma “dissertação”. Disserte sobre um assunto, é isso que diz o pré-requisito mínimo que temos no Brasil para alguém ser professor universitário. Em outras palavras: se você não sabe contar uma história você não pode ser professor universitário. A dissertação nada é senão isto: uma atividade do contador de história.
Infelizmente, não são poucos os estudantes de mestrado que não sabem contar uma história. Eles não são bons para contar uma piada, não são bons para contarem um “causo” e não conseguem colocar no papel algo que atraia um leitor de bons jornais. Sendo assim, especialmente no campo das Humanidades, um tal inepto candidato a professor universitário não deveria ser professor universitário.
A culpa de termos péssimos contadores de história como professores universitários não deriva de algo como “somos um povo sem memória” ou “somos um povo de escolarização sofrida, fraca”. Isso é verdade, mas não é isso que nos faz termos na cultura universitária pessoas que, pela lei da profissão deveriam ser bons contadores de história e, no entanto, não são. O problema está no modo como a cultura universitária se esqueceu do próprio entendimento do que é uma dissertação. Dissertatio – é isto: conte uma história. Comece por “Minhas férias” ou “O carro do papai” e passe pela “A mulher na Guerra do Paraguai” ou “Distúrbios da fala da criança na pré-escola” ou “A lógica de Santo Anselmo”. Todavia, esse fio condutor se perdeu. O estudante quer “fazer pesquisa”. E quer uma chave milagrosa para, da pesquisa, produzir seu texto. Ele imagina, estupidamente, que fazendo a disciplina (!) “Métodos e técnicas de pesquisa” ou a disciplina “Metodologia científica” ele conseguirá resolver seu problema, o de produzir sua dissertação. O que ele não sabe é que não é aí que mora o problema. O problema todo está lá na escola primária dele. Ele não foi educado fazendo o “ditado”, a “descrição”, a “interpretação” e, finalmente, a “dissertação” – a “redação”, diriam alguns. Ele não aprendeu a contar uma história.
Os contadores da história são os que navegam num mar que todos navegamos. Todavia, eles olham os corais, sabem da temperatura da água, observam os cardumes e, enfim, sentem cheiro de ilhas longínquas. Outros não. Outros navegam nessas águas e querem ir de continente em continente. Querem apenas aportar em praias novas e, em vez de olharem conchinhas, abrem pacotes de salgadinhos e os lambuzam com “Sandal”. Jogam banhas para lá e para cá, com a cerveja na mão. O mar é esquecido, a praia é comemorada como restaurante ou, pior, “quiosque à vista”. Esses navegadores não contam história nenhuma. O navegador que conta é aquele que vê as águas como quem vê o que chamamos de imaginário social.
O imaginário social é o tesouro do pirata chamado contador de histórias. Contação de histórias é algo de quem tem papagaio no ombro. Mas não é o papagaio que conta a história, é ele, o pirata, o grande contador. Só o pirata sabe das aventuras. Só ele pode atemorizar crianças contando de como ele adquiriu a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau.
O pirata tem o dom da dissertação. A cada aventura ele conta um conto e, é claro, aumenta um ponto. Este ponto aumentado é o segredo do seu negócio, e é exatamente o que vem do imaginário social.
Quando a química chama de volta a alquimia e quando a filosofia se reconcilia com o mito, eis aí a hora do contador de história. Pois nessa hora surge sob a luz do luar, na sexta feira treze, tudo que o imaginário social dá ao contador de história. Talvez seja importante a universidade entender que sua principal função é estar sob esse luar, para poder ser, ela também, procurada pelo cineasta. Só assim o professor universitário será um professor universitário. O homem da dissertatio.

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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