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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ouvir... escutar... tanto faz! Ninguém pratica nenhum deles mesmo!!

Digo isso pois às vezes observo as pessoas "conversando". "Seria cômico se não fosse trágico", por mais piegas que é essa frase, ela se encaixa aqui.
Não há vírgulas nos monólogos a dois. Sim, monólogos a dois, pois quando um fala, é como se estivesse falando sozinho, pois o outro não o ouve, nem ao menos escuta. Simplesmente as pessoas esperam o momento da respiração do falante-sem-parar e disparam a falar-sem-parar. E enquanto um fala, o outro não pensa naquilo que está sendo dito, mas sim naquilo que irá falar - mesmo que, muitas vezes, é uma repetição do que acabou de ser dito! Reparem por aí, seja no trabalho, na rua, na escola, no ônibus... é raro um diálogo hoje em dia.

Se bem que, reparando nessas conversas, os assuntos não são muito para pensar mesmo. É muita futilidade esparramada! Parece um twitter real. No twitter só tem bobeira tuitada: o cara vai ao banheiro e tuita: tô indo no banheiro; a pessoa ´ta com dor de cabeça e tuita isso; tá sem fazer nada, tuita: tô de bobeira; ´tá trabalhando, tuita (mentindo, pois se estivesse trabalhando, não estaria tuitando); e por aí vai. Falamos sobre isso, essa futilidade virtual, hoje (27 de abril) na tutoria, com o Prof Luiz Carlos Ramos; inclusive conversamos sobre a imposição dos assuntos das futilidades semanais pela mídia. Mas não falemos sobre isso. Pensemos nas bobeiras do twitter (salvo raras exceções), um monte de besteira dita, todo mundo lê, mas ninguém pensa sobre, e já tuita logo em seguida outra bobeira, as vezes conexo, e quase sempre desconexo. Assim são os diálogos, ops, monólogos a dois, de hoje, da contemporaneidade. Frases curtas, inexpressivas, e jogadas ao vento, ou na rede.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nicolao não quer nem saber de brilho no olho,

Texto do filósofo e professor Paulo Ghiraldelli. Notemos algumas palavras interessantes: o  professor não é colírio!  O olho do aluno deve brilhar pelo texto, e não pelas peripécias do professor. O brilho é pelo conteúdo, e não pela capa do livro. Muita gente vive assim, pela capa e sem conteúdo. Muitos professores são assim, sem conteúdo, só com títulos ostentados e apenas isso. Leia e reflita...

Nicolao não quer nem saber de brilho no olho

por Paulo Ghiraldelli
20/04/2011

O professor e filósofo Nicolao Julião está irritado com o ator global Lázaro Ramos. Particularmente, acho o Lázaro Ramos o ator mais antipático da TV após os dois desconhecidos que fazem as atuais propagandas do PSDB. Mas, na conta do Nicolao, o problema é mais com uma fala do Lázaro Ramos numa propaganda do MEC do que qualquer outra coisa. Trata-se daquela propaganda em que o ator global diz, por ordem do Fernando Haddad, que o professor deve provocar brilho nos olhos do aluno ou coisa parecida. Bem, eu também acho aquela propaganda misteriosa, pois fazer aluno ter brilho no olho com a hora-aula girando em torno de sete reais é para o Homem Aranha ou qualquer outro do Grupo Marvel, não para professor. Já a birra do Nicolao nem é pelo dinheiro, é pedagógica. Eu explico.
O Nicolao acha que professor não é colírio. O olho do aluno deve brilhar, se é para brilhar, por meio da relação cerebral com o texto. Talvez possamos criar um aparato didático que faça os alunos se interessarem pelas aulas, mas, sabemos bem, não há quem faça um aluno de um meio espiritualmente pobre ter interesse na cultura. Isso é impossível. O lar pobre de espírito, onde de modo algum a curiosidade por alguma das acepções da cultura entrou, só com milagre (que depois se descobre que não era milagre) faz do aluno alguém capaz de ter olho brilhando com algum conteúdo escolar. E se isso é assim quanto às crianças, mais ainda é verdade no ensino superior.
Sou uma pessoa com mais recursos didáticos que a maioria. Mas não acho que o Nicolao esteja errado. Vejam só o que quero dizer.
Um leitor escreveu em meu blog dizendo que quando ele lê Platão, sente sono. Então, perguntou se devia se matar. Eu prontamente disse que sim. Não é verdade? Ora, o que fazer com uma pessoa que abre A defesa de Sócrates, de Platão, e dorme diante da cena de um homem solitário que dispensa advogados e fala ele próprio a um tribunal de 500 membros, num julgamento que poderia levá-lo à morte? Sinceramente, o que pode ser mais emocionante e curioso que isso? Mas, se não bastasse, nessa história, Sócrates não fica só o tempo todo falando. Ele chama um de seus acusadores e o faz cair em contradição. Mostra o método chamado Elenkhós, o célebre “método da refutação”. E mais: em um determinado momento, ele diz que sempre filosofou a mando do “deus do Templo”! Contando isso, coloca os jurados em rebuliço ao afirmar, também, que há um deus que fala ao seu ouvido, e que isso acontecia desde que ele era criança! Ora, Sócrates, o pai da filosofia e do racionalismo que emerge da Grécia até nós – como podia ele ser também um místico? Mais problemas, mais inquietações. O texto platônico fica mais e mais emocionante. Todas essas cenas estão ali, vivas, relatadas por Platão. Há como dormir? Há como ter sono? É realmente necessário não ter nenhum contato com a cultura, com qualquer tipo de cultura, para ter sono ao ver um conjunto de cenas desse tipo. Além disso, sabemos bem, Platão é um bom escritor. Um dos melhores. O que fazer para que esse rapaz, que se identificou como L. Vianna (segundonenos@yahoo.com.br), possa não dormir lendo Platão?
Não ousaria apresentá-lo ao Nicolao, certamente. Acho que a primeira coisa que passaria pela cabeça do Nicolao seria roubar a cicuta de Sócrates para oferecê-la ao Vianna. De certo modo, foi um pouco o que eu fiz. Ele, esse leitor, me perguntou se ele devia se matar por causa do sono ao ler Platão! Ora, claro que sim! Tem mesmo que se matar. Ele, esse leitor, é mais um daqueles que, quando falamos para ler Platão, nos acha uma pessoa autoritária, porque ele imagina que poderia aprender filosofia por outra via. Conhecem o tipo, não? Pois é, eu não hesitei, disse que ele deveria, sim, se matar. Acho até que disse pouco. Deveria ter gasto meu tempo e realmente convencido a figura de morrer se enforcando num cogumelo.
Para esse tipo de pessoa, eu não tenho que chamar o Lázaro Ramos. Não! Eu posso chamar até a Angelina Jolie. O olho dele não vai brilhar de modo algum. Pois o olho está ligado ao cérebro, mas não no caso desse rapaz. Nesse rapaz, o cérebro está morto. Foi petrificado pelo tempo. Que tempo? O tempo em que ele viveu em algum lugar em que a pobreza de espírito o devorou.
Ele é um rapaz que se acha inteligente, pois lê Kant. Ele acha que está entendendo Kant. Não percebe que se Platão lhe dá sono, ele não está entendendo nada de Kant. Ele não está entendendo nada de nada. Ele certamente é incapaz de dançar ao som de Tim Maia. Ele não vai conseguir nunca gostar de Rita Lee. Esse tipo de jovem acaba entrando na Universidade? Talvez sim. Talvez até seja um universitário. Mas é um mamífero com defeito de fabricação. Um defeito sem volta, sem conserto. Não há peça que se possa trocar numa pessoa assim, de modo a devolver-lhe algo que não sabemos criar, que é a vida.
Esse tipo de caso é caso perdido. Nessas horas, não há como não endossar a idéia de que brilho no olho de aluno é alguma coisa do papagaio de pirata Lázaro Ramos. Nicolao está certo. Mas, mais certo que o Nicolao, é quem disse certa vez que precisamos poder usar a palavra “burro” para quem é adepto da burrice. “Platão dá sono” – essa frase é uma burrice.
© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ
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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sermões de J Wesley: Sermão 47 AFLIGIDOS ATRAVÉS DE VÁRIAS TENTAÇÕES


SERMÃO 47
NOTAS INTRODUTÓRIAS
No discurso precedente Wesley nos forneceu o necessário auxilio ao exame de nós mesmos. Mas, conquanto o exame de si mesmo seja essencial ao devido progresso da alma, é possível levar mais longe esse processo. À medida que haja consciência de um declínio no estado da religião na alma, a causa deve ser diligentemente procurada e, se necessário, devemos procurá-la miúda e completamente em todos os recantos do coração, para que possamos descobrir a causa do torpor espiritual.
Mas há um limite ao exame de si mesmo. Quando não há falta de sensibilidade, e clara evidência existe de um profundo e sério desejo de fazer a vontade de Deus, pode haver um estado de abatimento, que aí se distingue do estado de trevas espirituais. Essas inquietações podem provir de uma diversidade de causas. O estudante fará bem em examinar o argumento de Wesley com grande cuidado. Os ministros têm freqüentemente de tratar com almas que se submetem ao peso de múltiplas tentações. Certos estados de saúde física produzem esse torpor espiritual. Não se segue que pecados de comissão ou pecados de omissão sejam os causadores desse estado de depressão mental. O efeito de uma grande tristeza, de uma aflição doméstica, a perda de bens, o peso dos cuidados ocasionados pelas responsabilidades da vida – estas e muitas outras causas podem produzir a condição descrita neste discurso.
Lidar sábia e prudentemente com todas as classes de crentes, dando a cada um seu sustento no tempo devido, tal é o dever do ministro. Para assim fazer, ele deve saber perfeitamente a ocasião e o remédio. “O que ganha almas é sábio”.


ESBOÇO DO SERMÃO 47


Há semelhança entre as trevas e o entorpecimento, mas também existe profunda e essencial diferença.
I. A espécie de pessoas que estão entorpecidas. Elas têm fé viva, paz, esperança e alegria. Têm consciente amor de Deus e mantêm sua santidade.
II. A natureza de seu entorpecimento. Aflição severa prolongada.
III. As causas desse entorpecimento.
Tentações, muitas em número e em qualidade, tais como desordens físicas, pobreza, e perda de amigos, o pecado dos que nos são caros. Mas não é da arbitrária vontade de Deus retirar o conforto de seu Espírito. Nem retira necessariamente aquele conhecimento de nós mesmos, pelo qual nos preparamos para mais altas conquistas.
IV. Os fins do entorpecimento.
V. Lições.


SERMÃO 47


AFLIGIDOS ATRAVÉS DE VÁRIAS TENTAÇÕES


“Agora, por um pouco de tempo, sendo necessário, sois afligidos através de várias tentações”.
(1Pedro 1.6)


NO DISCURSO precedente falei especialmente daquelas trevas mentais em que com freqüência recaem, segundo
se observa, os que uma vez andaram à luz da face de Deus. Relaciona-se de perto com aquele assunto a aflição de alma, que ainda é mais comum, mesmo entre os crentes. Na verdade, quase todos os filhos de Deus a
experimentam, em grau maior ou menor. E tão grande é a semelhança entre um e outro estado, que eles
freqüentemente se confundem, e somos capazes de dizer indiferentemente: “Tal pessoa está em trevas”, ou “tal
pessoa está em aflição” – como se se tratasse de termos equivalentes, nenhum deles implicando em mais do que o outro implica. Mas estão longe, muito longe disto: Trevas são uma coisa; aflição é outra. Há diferença, sim, uma grande diferença entre a primeira e a última. E tal diferença é o que todos os filhos de Deus precisam exatamente conhecer; de outro modo, nada lhes será mais fácil do que o resvalar-se da tristeza para as trevas. Para prevenir isto, tenciono mostrar:
I. Que espécie de pessoas eram aquelas a quem o apóstolo dizia: “Vós estais em aflição”;
II. Em que espécie de aflição se encontravam;
III. Quais eram as causas; e
IV. Quais eram os seus fins. Concluirei com algumas inferências.


I


1. Tenciono mostrar, em primeiro lugar, que espécie de pessoas eram aquéias a quem o apóstolo dizia: “Vós estais em aflição”. E, primeiro, é fora de toda controvérsia que eram crentes ao tempo em que o apóstolo assim se dirigia a elas: porque assim ele expressamente o diz (versículo 5): “Vós que sois guardados pelo poder de Deus através da fé para a salvação”. Outra vez (versículo 7) ele menciona: “a prova de sua fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece”. E ainda outra vez o escritor fala de terem elas “recebido o fim de sua fé, a salvação de Suas almas”.
Ao mesmo tempo, pois, que essas pessoas estavam “em aflição”, estavam de posse de viva fé. Sua aflição não lhes destruiu a fé; “ainda permanecem como vendo o Invisível”.
2. Nem sua aflição lhes destruiu a paz, a “paz que excede a toda compreensão”, que é inseparável da verdadeira,
viva fé. Isto podemos facilmente respigar do segundo versículo” onde o apóstolo ora, não por que a graça e a paz
lhes sejam dadas, mas somente por que elas possam “ser multiplicadas” neles; ora por que as bênçãos de que antes gozavam lhes fossem mais abundantemente comunicadas.
3. As pessoas a quem o apóstolo aí fala estavam também cheias de viva esperança. Porque assim diz Ele (versículo 3): “Bem-aventurado seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo sua abundante misericórdia, outra vez nos gerou” – a mim e a vós, a quantos somos “santificados pela Espírito”, e gozamos da “aspersão do sangue de Jesus Cristo” – “para uma viva esperança, para uma herança”, isto é, para uma viva esperança de uma herança “incorruptível, inabalável e que não murcha”. Assim, não obstante sua aflição, eles ainda mantêm na firme esperança da imortalidade.
4. E eles ainda se “regozijavam na esperança da glória de Deus”. Estavam cheios de alegria no Espírito Santo.
Assim, (versículo 8), tendo o apóstolo mencionado a final “revelação de Jesus Cristo” (isto é, quando Ele vier a
julgar o mundo), Imediatamente acrescenta: “em quem, embora agora não o vejais”, não vejais com os olhos
corpóreos, “ainda credes, regozijando-vos com gozo indizível e cheio de glória”. Sua aflição, portanto, era não só
consistente com a viva esperança, mas também com alegria indizível: ao mesmo tempo que estavam aflitos,
regozijavam-se, não obstante, com alegria cheia de glória.
5. Nu meio de sua aflição, ainda igualmente desfrutam do ardor de Deus, que fora derramado em seus corações; “a quem” – diz o apóstolo – “não o tendo visto, vós amais”. Embora o não tenhamos visto face a face, todavia,
conhecendo-o pela fé obedecemos à sua palavra: “Filho meu, dá-me teu coração”. Ele é vosso Deus, vosso amor, o desejo de vossos olhos e vossa “excessivamente grande recompensa”. Buscastes a felicidade e a encontrastes nele: vós vos “alegrastes no Senhor” e Ele vos deu “o desejo de vosso coração”.
6. Mais: embora fossem afligidos, ainda eram santos; conservavam o mesmo poder sobre o pecado. Eram ainda
“guardados” do pecado “pelo poder de Deus”; eram “filhos obedientes, não conformados com seus primitivos
desejos”, mas, “como Aquele que os chamou é santo”, assim eles eram “santos em toda maneira de conversação”.
Sabendo que foram “redimidos pelo precioso sangue de Cristo, como de um Cordeiro sem defeito e imaculado”,
têm, através da fé e da esperança depositadas em Deus, “purificado suas almas pelo Espírito”. Assim é que, em
conjunto, sua aflição é bem consistente com a fé, com a esperança, com o amor de Deus e do homem, com a paz de Deus, com a alegria no Espírito Santo, com a santidade interior e exterior. A aflição de modo nenhum enfraquece e muito menos destrói qualquer parte da obra de Deus no coração. Ela de modo nenhum entra em conflito com a “santificação do Espírito”, que é a raiz de toda a verdadeira obediência, nem com a felicidade, que deve necessariamente resultar da graça e da paz que reinam no coração.


II


1. Daí podemos facilmente aprender a espécie de aflição em que eles se encontravam – o que vem a ser a segunda coisa que tenciono mostrar. A palavra é, no original, luphqentev – – torna aflitos, atormentado; vem de luph– tormento ou aflição. Esta é a constante, literal significação da palavra: e feito este reparo, não há ambigüidade na expressão, nem qualquer dificuldade na compreensão dela. As pessoas de quem aí se fala eram atormentadas: a aflição em que se encontravam era nem mais, nem menos do que pesar ou tristeza; uma paixão com que todo filho do homem está bem familiarizado.
2. É provável que nossos tradutores representassem a idéia como aflição heaviness (embora sendo palavra menos comum) para denotar duas coisas: primeiro, o grau; e, segundo, a continuação dela. Parece, na verdade, que não é um fraco ou insignificante grau de aflição o de que ai se trata, mas de aflição que produz forte impressão sobre a alma e penetra-a fundamente. Nem parece ser uma aflição passageira, que acabe numa hora, mas, antes, uma provação que, tendo-se assenhoreado do coração, não se abala no presente, mas continua por algum tempo, como uma disposição firmada, antes do que como uma paixão, manifestando-se naqueles que têm viva fé em Cristo e têm o genuíno amor de Deus em seu coração.


3. Mesmo nesses tais a aflição (pode algumas vezes ser tão profunda, que obscurece toda a alma; que tinge, por
assim dizer, todas as afeições, de modo a transparecer de todo o seu exterior. Pode do mesmo modo ter influência sobre o corpo principalmente naqueles que são de constituição natural débil, ou se encontram enfraquecidos por qualquer desordem acidental especialmente de fundo nervoso. Em muitos casos verificamos que “o corpo corruptível faz pressão sobre a alma”: neste caso é antes a alma que faz pressão sobre o corpo, debilitando-o cada vez mais. Não direi, ademais, que aquela profunda e duradoura tristeza de coração não possa algumas vezes abalar mesmo uma constituição forte, e lançar os fundamentos de distúrbios físicos que não são fáceis de remover: e ainda tudo isso pode ser consistente com certa dose daquela fé que opera por amor.


4. Esta bem pode ser chamada de “ardente provação”: e, embora não seja a mesma de que faia o apóstolo no quarto capítulo, muitas das expressões aqui usadas, concernentes aos sofrimentos externos, podem ser acomodadas a esta aflição interior. Elas não podem, na verdade, ser aplicadas, com qualquer propriedade, aos que estão em trevas.
Estes não se regozijam, em podem regozijar-se; nem é verdade que “o Espírito de gloria de Deus descanse sobre” eles. Mas Deus freqüentemente o faz em relação aos que estão aflitos, de modo que, embora tristes, eles, contudo, sempre se regozijam.


III


1. Mas, para passarmos ao terceiro ponto: quais são as causas de tal tristeza ou aflição no verdadeiro crente – o
apóstolo claramente nos declara: “Vós estais em aflição” – diz ele “através de várias tentações”; poikiloiv– várias
tentações: não somente muitas em número, mas de muitas espécies. Podem ser variadas e diversificadas de mil
modos, pela mudança ou adição de circunstâncias inumeráveis. E a própria diversidade ou variedade faz que seja
mais difícil que o homem se livre delas. Entre elas podemos arrolar todos os distúrbios físicos, principalmente as
doenças agudas e as dores violentas de qualquer espécie, quer afetem todo o corpo, quer atinjam somente uma
parte menor do organismo. É verdade que alguns, que têm desfrutado de inalterável saúde, e que não
experimentaram nenhum daqueles males, podem fazer pouco caso dessas dores e admirar-se de que a doença, ou o sofrimento físico, possam trazer aflição ao espírito. E talvez haja um em mil de constituição tal, que não sinta dores como os demais homens. Assim há de ter sido do agrado de Deus mostrar seu poder soberano, produzindo alguns desses prodígios da natureza, que coisa alguma sentiram em referência às dores, mesmo da espécie mais severa – se não é que o conceito de dor proceda parcialmente da força da educação, parcialmente de uma caus preternatural – ao poder de espíritos bons ou maus, que teriam erguido aqueles homens acima do estado de mera natureza. Mas, abstração feita daqueles casos especiais, é, em geral, uma justa observação que
“A dor é perfeita miséria; e, sendo extrema, Inteiramente aniquila toda a paciência”.
E mesmo quando tal condição é prevenida pela graça de. Deus, de modo que os homens “possuam suas almas em paciência”, pode a dor, não obstante, ocasionar aflição interior, simpatizando a alma com o corpo.


2. Todas as doenças de longa duração, embora menos aflitivas, são capazes de produzir os mesmos resultados.
Quando Deus faz recair sobre nós o esgotamento, ou os acessos intermitentes da frialdade e do ardor da febre, se esse mal não for rapidamente debelado, ele não só “consumirá os olhos”, mas “trará tristeza ao coração”. Este é eminentemente o caso de todas as chamadas desordens nervosas. A fé não transtorna a ordem da natureza: as causas naturais produzem efeitos naturais. A fé não pode suprimir o desmaio dos espíritos (como é chamado) num mal histérico, nem levantar o pulso num caso de febre.


3. Mais: quando a “calamidade sobrevém como um tufão e a pobreza como um homem armado”, constitui isto
pequena tentação? É de estranhar que determine tristeza e aflição? Embora ainda isto não pareça senão coisa de
somenos aos que ficam à distância, ou que “olham e passam de largo”, todavia o caso é diferente em relação aos
que o sentem. “Tendo alimento e vestuário” (na verdade, a última palavra – skepasmataimplica em habitação tanto
quanto em vestuário), podemos, Se o amor de Deus estiver em nosso coração, “estar satisfeitos com isso”. Mas,
que farão os que não têm nada dessas coisas? Que, por assim dizer, “têm a caverna como abrigo”? Que têm
somente a terra para sobre ela se deitar e somente o firmamento para os cobrir? Que farão os que não têm uma
habitação seca, agasalhada, e muito menos abrigo asseado que os aloje com sua família? Não, nem roupas para se cobrirem e para agasalharem aqueles a quem amam logo abaixo de si mesmos, de modo que se resguardem do frio, seja de dia, seja de noite? Rio-me da estulta exclamação pagã
“Nil habet infelix paupertas durius in se, Quam quod ridiculos homines facit!”
Tem a pobreza alguma coisa de pior em si mesma do que isto: tornar os homens capazes de rir-se dela? Isto indica que esse poeta ocioso ia pelas estradas a falar de coisas que não sabia. A falta de alimento não é algum tanto pior do que aquilo? Deus qualificou como maldição do homem o fato de que este angariasse o alimento “com o suor de seu rosto”. Mas no pre sente muitos há neste pais cristão que labutam, trabalham e suam, e afinal não têm alimento, mas ao mesmo tempo mourejam com aflição e fome. Que coisa há de pior para alguém do que, após uma rude jornada de trabalho, regressar a um casebre pobre, frio, sujo, desconfortável, e ai não encontrar nem sequer o alimento necessário à reparação das energias gastas? Vós que levais na terra vida fácil, que, não sofreis falta de coisa alguma, a não se  de olhos para ver, ouvidos para ouvir e corações para sentir quão bondoso tem sido Deus para convosco – não é pior buscar o pão dia após dia, e nada encontrar? Talvez também buscar o alimento de cinco ou seis crianças gritando por aquilo que o pai não tem para dar? Não acontecesse que mão invisível o contivesse, logo não faria ele isto: “amaldiçoar a Deus e morrer”? Oh! Falta de pão! Falta de pão! Quem pode dizer o que significa isso, a não ser que tenha passado por semelhante falta? Admiro-me de que ela não produza mais do que aflição, mesmo nos que crêem!


4. Talvez que, a seguir; possamos lembrar o amor e daqueles que se achavam unidos a nós e nos eram caros; de um pai carinhoso e não muito avançado no vale dos anos; de um filho amado, surdindo apenas na vida e enlaçando-a a nosso coração; de um amigo que nos era como a própria alma, e, abaixo da graça de Deus, a derradeira e melhor dádiva do céu. E um milhar de circunstancias pode exacerbar a dor. Talvez o filho, o amigo, morre sob nosso abraço! – talvez tivesse sido arrebatado quando não esperávamos por isso! vicejando, é ceifado à semelhança de uma flor! Em todos esses casos não somente podemos recair, mas necessariamente recaímos em aflição: é desígnio de Deus que tenhamos aflições em casos tais. Ele não quereria ter em nós toros de madeira ou blocos de pedra. Quer ter nossas afeições reguladas, mas não extintas. Portanto, “a natureza irreprimível pode verter uma lágrima”. Pode-se entristecer sem pecado.


5. E tristeza ainda mais profunda podemos experimentar em face dos que estão mortos, conquanto vivam; em razão da impiedade, ingratidão, apostasia daqueles que estavam unidos a nós pelos laços mais fortes. Quem pode expressar o que o amante das almas pode sentir por um amigo, por um irmão, morto para Deus? Por um marido, uma esposa, um pai, um filho que corra para o pecado como um cavalo para a batalha apressando-se, a despeito de todos os argumentos e persuasão: a consumar sua própria perdição. Essa angústia de espírito pode ser elevada a um grau inconcebível, pela consideração de que o que ora corre rumo à destruição, já uma vez correu bem no caminho da vida. O que ele fora no passado agora não lhe serve para coisa alguma, a não ser para tornar mais cortantes e afetivas nossas reflexões sobre seu estado presente.


6. Em todas essas circunstâncias, estejamos certos, nosso grande adversário não deixará de servir-se da
oportunidade Ele, que está sempre “andando em redor, buscando a quem possa tragar”, usará então, co
especialidade, de todo seu poder, de toda sua habilidade, a ver se é bem sucedido no obter qualquer vantagem
sobre a alma que já se acha abatida. Não deixará de atirar seus dardos inflamados, visando o ponto mais vulnerável e dai fixando-se mais profundamente no coração, pela receptibilidade à tentação que o assalta. Trabalhará por inocular pensamentos de incredulidade, ou de blasfêmia, ou de murmuração. Insinuará que Deus não cuida da terra, não a governa; ou, pelo menos, que Ele a não governa bem, nem segundo os princípios da justiça e da misericórdia. Tentará excitar o coração contra Deus, tentará renovar nossa natural inimizade para com Deus. Se resolvermos dar-lhe combate com suas próprias armas, se começarmos a discutir com ele, resultar-nos-á aflição cada vez maior, senão mesmo treva profunda.


7. Freqüentemente se supõe que haja outra causa, senão de trevas, pelo menos de aflição: – que Deus se oculte à alma. Em razão de ser essa a sua vontade soberana. Certamente que Ele faz isto, se ofendermos a seuSanto
Espírito, seja por pecado exterior; seja por se fazer o mal ou por negligenciar a prática do bem; por dar lugar ao orgulho ou à ira, à indolência espiritual aos desejos insensatos ou às afeições desordenadas. Mas que Ele alguma vez se oculte porque queira, meramente por ser essa a sua vontade, nego-o com firmeza. Não há texto em toda a Bíblia que forneça qualquer apoio a tal suposição. Demais, tal suposição é contrária não Somente a muitos textos particulares, mas a todo o teor da Escritura. Repugna à própria natureza de Deus: rebaixa inteiramente sua majestade e sabedoria (como se expressa energicamente um escritor ilustre), “brincar de esconder com suas criaturas”. Tal conduta é inconsistente tanto com sua justiça como com sua misericórdia, assim como com a pura experiência de todos os filhos seus.


8. Mais outra causa de aflição é mencionada por muitos dos chamados “autores místicos” – e a idéia se insinuou,
não sei como, mesmo entre o povo simples, que não tem contacto com tais autores. Não posso expor melhor a
questão do que pelas palavras de uma escritora recente, que o relata como sua própria experiência: “Eu permanecia tão feliz em meu Bem-amado que, embora tivesse sido forçada a viver errante no deserto, nisto não teria encontrado dificuldade alguma. Este estado não havia durado muito quando, de fato, me vi levada ao deserto.
Encontrei-me em triste condição, ao mesmo tempo pobre, iníqua e miserável. A própria fonte desse mal é o
conhecimento de nós mesmos, pelo qual ficamos sabendo que há uma extrema dessemelhança entre Deus e nós; vemo-nos mais opostos a Ele e verificamos que nossa alma é, no íntimo, inteiramente corrupta, depravada e cheia de toda espécie de mal e malignidade, do mundo e da carne, e de todas as sortes de abominações”. Dai se tem inferido que o conhecimento de nós mesmos, sem o qual deveríamos perecer eternamente, deve, mesmo depois de termos alcançado a fé justificadora, determinar a mais profunda aflição.


9. Sobre isto, entretanto, observarei: (1) – No parágrafo precedente, essa escritora diz: “Verificando que não tenho
verdadeira fé em Cristo, ofereço-me a Deus, e imediatamente sinto seu amor”. Pode ser que seja assim; todavia,
não parece que isso seja justificação. É mais provável que não fosse mais do que o que comumente se chama a
“atração do Pai”. E se assim for, a aflição e as trevas que se seguem não são outra coisa senão convicção de
pecado, a qual, pela natureza das coisas, deve preceder àquela fé mediante a qual somos justificados. (2) –
Supondo-se que ela fosse justificada quase no mesmo momento em que se convenceu de falta de fé, não haveria
tempo para o gradual aumento do conhecimento próprio, que costuma vir antes da justificação: neste caso,
portanto, viria depois e seria provavelmente tanto mais severo quanto menos se esperava por ele. (3) – Admite-se
que haverá mais profundo, mais claro e mais completo conhecimento de nosso pecado congênito, de nossa inteira corrupção natural, depois da justificação, do que em qualquer época anterior. Mas isso não fornece necessária ocasião de trevas da alma; nem direi que ela deva conduzir-nos à aflição. Se assim fosse, o apóstolo não teria usado da expressão – se for necessário; porque haveria absoluta, indispensável, necessidade dela por parte de todos os que desejem conhecer-se a si mesmos, isto é, por parte de todos os que pretendam conhecer o perfeito amor de Deus e, por meio dele, tornarem-se “aptos à participação da herança dos santos em luz”. Mas este não é, de modo nenhum, o caso. Pelo contrário, Deus pode aumentar o conhecimento de nós mesmos em algum grau, e aumentar, na mesma proporção, o conhecimento do Senhor a experiência de seu amor. Neste caso não haverá “soledade”, nem “miséria”, nem “estado de abandono”; mas amor, e paz, e alegria, gradualmente saltando para a vida eterna


IV


1. Para que fim, então (o que vem a ser o quarto ponto a ser considerado), Deus permite que a aflição sobrevenha a tantos de seus filhos? O apóstolo nos dá clara e satisfatória resposta a esta importante questão: “Para que a prova de sua fé, que é muito mais preciosa do que o ouro que perece, o qual é provado pela fogo, possa resultar em louvor, honra e glória, à revelação de Jesus Cristo” (versículo 7). Pode haver alusão a isso na bem conhecida
passagem do quarto capítulo (embora a passagem, primariamente, se relacione com outra coisa diversa, como já se observou): “não estranheis a ardente provação que há no meio de vós e que vem para vos pôr à. prova; mas
regozijai-vos em serdes participantes dos sofrimentos de Cristo; para que, quando sua glória for revelada, possais
igualmente exultar com alegria excessivamente grande” (versículos 12ss).


2. Dai aprendemos que o primeiro e grande fim que Deus tem em vista, permitindo as tentações que afligem a seus filhos, é a prova de sua fé que é experimentada por meio delas, assim como o ouro o é pelo fogo. Ora, sabemos que o ouro, submetido ao fogo, é por ele purificado, separando-se de suas escórias. Assim acontece com a fé exposta ao fogo da tentação: quanto mais é provada, mais se purifica; sim, e não somente se purifica, mas também se enrija, confirma-se, aumenta-se abundantemente, por outras tantas evidências de sabedoria e do poder, do amor e da fidelidade de Deus. Este, portanto, é um gracioso fim que Deus tem em vista, permitindo aquelas múltiplas tentações: aumentar-nos a fé.


3. Elas servem para provar, para purificar, para confirmar e também para aumentar aquela viva esperança, para a
qual “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo nos gerou de novo por sua grande misericórdia”. Na verdade,
nossa esperança não pode senão crescer segunda a mesma proporção de nossa fé. Sobre este fundamento ela
repousa: crendo em seu Nome, vivendo pela fé no Filho de Deus, esperamos, temos uma confiante expectação da glória que se há de revelar e, conseqüentemente, tudo quanto nos fortalece a fé, aumenta-nos também a esperança. Ao mesmo tempo aumenta-se nossa alegria no Senhor, que não pode deixar de acompanhar a plena esperança da imortalidade. Com tal intenção o apóstolo exorta os crentes, em outro capítulo: “Regozijai-vos por serdes participantes dos sofrimentos de Cristo”. Exatamente por este motivo “sois felizes; porque o Espírito de glória e de Deus repousa sobre vós”: e por Ele sois habilitados, mesmo em meio de sofrimentos, a “regozijar-vos com alegria indizível e cheia de glória”.


4. Regozijam-se ainda mais, porque as provações que lhes aumentam a fé e a esperança, também lhes aumentam o amor – quer sua gratidão para com Deus, em face de todas as suas misericórdias, quer sua boa vontade para com toda a humanidade. Conseqüentemente, quanto mais sensíveis se mostram à compaixão de Deus seu Salvador, mais seu coração se inflama de amor para com o que “primeiro nos amou”. Quanto mais clara e mais forte for a evidência que tenham da glória que se há de revelar, maior amor terão Aquele que a adquiriu para eles e “tornou-a mais ardente em seus corações”. E isto: – o aumento de seu amor – é outro fim para o qual Deus permite venham sobre eles as tentações.


5. Ainda outro fim é o progresso na santidade; santidade de coração e santidade de conversação – naturalmente
resultando a última da primeira, porque a árvore boa produz bons frutos. E toda a santidade interior é fruto
imediato da fé que opera por amor. Pelo amor o bendito Espírito purifica o coração do orgulho, da obstinação, da
paixão; do amor ao mundo, de desejos maus e insensatos; das afeições vis e profanas. Ao lado disso, as aflições
santificadas têm, pela graça de Deus, uma tendência imediata e direta para a santidade. Através da operação de seu Espírito, eles se humilham cada vez mais e dobram a alma diante de Deus. Elas acalmam e pacificam nosso
espírito insofrido, amansam o furor de nossa natureza, abrandam nossa obstinação e voluntariedade, crucificamnos para o mundo e levam-nos a esperar de Deus toda nossa fortaleza e a buscar nele toda nossa felicidade.


6. E tudo isso termina naquele grande fim: para que nossa fé, esperança, amor e santidade “possam resultar”, se o não demonstram ainda, “em louvor” da parte do próprio Deus, “honra” da parte dos homens e dos anjos e “glória”
comunicada pelo grande Juiz a todos Os que tenham perseverado até o fim. Isto será anunciado naquele dia
tremendo a todo homem, “segundo suas obras”; segundo a obra” que Deus haja operado em seu coração e as obras exteriores que. o homem tenha feito para Deus; e do mesmo modo segundo o que tenha sofrido. Assim, todas essas provações são lucros inapreciáveis. Por muitos modos, aquelas “aflições, que duram só um momento, operam em nosso favor um mui excessivo e eterno peso de glória!”.


7. Adicionai a tudo isso a vantagem que outros podem tirar, contemplando-nos em nossas aflições. Verificamos
pela experiência que o exemplo geralmente produz mais funda impressão sobre nós do que o preceito. E que
exemplos têm mais forte influência, não somente sobre os que são participantes de igual fé preciosa, mas sobre os que não têm conhecimento de Deus, do que os de uma alma tranqüila e serena em meio das tempestades; triste, e, contudo, regozijando-se sem cessar; aceitando humildemente o que quer que seja da vontade de Deus, por mais penoso que isso possa ser à natureza; dizendo, na enfermidade e na dor: “A taça que meu Pai me deu, não a beberei?” – dizendo, nos prejuízos e nas faltas: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o nome do
Senhor!”


V


1. Devo concluir com algumas inferências. E, primeiro, quão larga é a diferença entre trevas da alma e aflição; as
quais, não obstante, tão geralmente são confundidas, mesmo por cristãos experimentados! As trevas – ou o estado de abandono implicam na perda total da alegria no Espírito Santo: a aflição não produz isto; em meio dela
podemos “regozijar-nos com alegria indizível”. Os que estão em trevas perderam a paz de Deus; com os que se
acham em aflição não acontece isto; pelo contrário, no próprio tempo da aflição a “paz”, assim como a “graça”,
podem “multiplicar-se” neles. No primeiro caso o amor de Deus se resfria, se acaso não se extingue inteiramente;
no segundo, o amor conserva toda sua força, ou, antes, aumenta-se diariamente. Nos que estão em trevas a própria fé, se não se perde totalmente, decai, todavia, gravemente: sua evidência e convicção das coisas não vistas, principalmente do amor perdoador de Deus, já não são tão claras ou tão fortes como no Passado, e sua confiança Dele proporcionalmente se abala; os aflitos, quer o vejam, quer não, têm ainda uma clara, inabalável confiança em Deus e uma constante evidência daquele amor mediante o qual todos os seus pecados são cancelados. Assim na medida que possamos distinguir a fé da incredulidade, a esperança do desespero, a paz da guerra, o amor de Deus do amor do mundo, podemos infalivelmente distinguir a aflição das trevas!


2. Dai podemos aprender, em segundo lugar, que pode haver necessidade de aflição, mas não pode haver
necessidade de trevas. Pode ser necessário que estejamos em “aflição por algum tempo”, para os fins acima
citados; pelo menos nesse sentido, como sendo o resultado daquelas “múltiplas tentações” que são necessárias para provar e aumentar nossa fé, para confirmar e aumentar nossa esperança, para purificar nosso coração de todas as inclinações ímpias e para aperfeiçoar-nos em amor. E, em conseqüência, elas são necessárias ao brilho de nossa coroa e ao aumento de nosso eterno peso de glória. Mas não podemos dizer que as trevas sejam necessárias à consecução de nenhum daqueles fins. Não são meios que conduzam a eles; a perda da fé, da esperança, do amor, certamente que não leva à santidade, nem ao aumento daquela recompensa no céu, que será proporcionada à nossa santidade na terra.


3. Do modo de falar do apóstolo podemos inferir, em terceiro lugar, que mesmo a aflição nem sempre é necessária. “Agora, por algum tempo, se for necessário”: assim, ela não é necessária a todas as pessoas, nem a uma pessoa em todos os tempos. Deus, que tanto possui poder como sabedoria, é capaz de operar em minha alma, por outros meios, a mesma obra, quando isso seja de seu agrado. E em alguns casos Ele faz assim; determina, segundo lhe agrade, que alguns cresçam de força em força, até que “aperfeiçoem a santidade em seu temor”, com pouca ou nenhuma aflição, tendo Deus absoluto poder sobre o coração do homem e movendo todas as fontes de energia segunda sua vontade. Esses casos são, porém, raros: Deus geralmente acha bom provar “os homens aceitáveis na fornalha da aflição”. Assim, aquelas múltiplas tentações e aflições são, em maior ou menor escala; a porção de seus filhos mais queridos.


4. Devemos, portanto, em último lugar, vigiar e orar, usando de nossos maiores esforços para evitar cairmos em
trevas. Mas não temos necessidade de estar solícitos quanto ao modo de evitar, assim como quanto ao modo de
aproveitar as aflições. Nosso grande cuidado deve ser o de termos tal conduta debaixo da aflição, que busquemos
ao Senhor em meio dela, de modo que responda plenamente a todos os desígnios do amor de Deus, ao permitir que ela venha sobre nós; para que possa ser um meio de aumentar-nos a fé, de confirmar -nos a esperança e de
aperfeiçoar-nos em toda a santidade. Toda:s as vezes que a aflição vier, tenhamos as vistas voltadas para os
graciosos fins para que ela é permitida e usemos de toda diligência para que não tornemos vão o conselho de Deus contra nós mesmos. Cooperemos diligentemente com Ele, pela graça que constantemente nos concede,
“purificando-nos a nós mesmos de toda contaminação, tanto da carne como do espírito” e crescendo diariamente
na graça de nosso Senhor Jesus Cristo, até que sejamos recebidos em seu reino eterno!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A queda de uma igreja passa por cinco estágios nem sempre fáceis de perceber.

A queda de uma igreja passa por cinco estágios nem sempre fáceis de perceber.




Por Gordon MacDonald

Um pouco antes de terminar meus estudos em teologia, fui convidado para pastorear uma congregação no sul do Illinois, nos Estados Unidos. Aquele foi meu primeiro grande despertamento para as realidades da liderança pastoral – e uma experiência um tanto desconfortável. As habilidades ou dons que levaram a congregação a me convidar a ser seu líder espiritual foram, provavelmente, meu entusiasmo, minha pregação e minha aparente habilidade – mesmo sendo ainda jovem – em alcançar pessoas e fazê-las sentirem-se cuidadas.
O que não havia sido mencionado era o fato de aquela congregação estar desiludida devido a uma terrível divisão provocada pelo pastor anterior, que encorajou um grupo de cem pessoas a sair com ele para formar outra congregação. E bastaram apenas alguns meses para que eu percebesse que entendia muito pouco sobre liderar uma organização com aquele tamanho e complexidade, e ainda por cima, tão ferida. Com meus 27 anos, eu estava completamente perdido. Passara meus anos no seminário pensando que tudo que alguém precisava para liderar era uma mensagem carismática e uma visão encorajadora, e tudo o mais na vida da igreja seria perfeito. Ninguém havia me falado sobre grupos a serem dirigidos, equipes esperando resultados e congregações precisando ser curadas. Há quem tenha bom conhecimento de como conduzir uma comunidade cristã. Eu não tinha.
Foi naqueles dias de angústia que fui apresentado ao meu primeiro livro de liderança organizacional, The Effective Executive (“O executivo eficiente”), de Peter Drucker. Ali, percebi como as pessoas estão dispostas a alcançar objetivos que não podem ser atingidos. Aquele livro, provavelmente, me livrou de um nocaute no primeiro round em minha vida como um pastor. Desde aquela época, mais de quarenta anos atrás, incontáveis outros autores tentaram aprimorar os insights de Drucker. E nenhum deve ter tido mais sucesso nessa tarefa quanto Jim Collins. Não sei se ele tinha pessoas como eu em sua mente quando ele escreveu seus livros, mas muitos de nós, engajados ou não no trabalho pastoral, aprendemos muito com ele.
Recentemente, Collins e seu grupo de pesquisadores escreveram uma obra menor, com o nome How the Mighty Falls (ainda sem titulo em português), que segundo ele começou como um artigo e terminou como um livro. Collins afirma que foi inspirado em uma conversa durante um seminário, no qual alguns poucos líderes de setores tão diversos como o militar e o de empreendimentos sociais reuniram-se para explorar temas de interesse comum a todos. O tema era a grandeza da América e os riscos desse gigantismo. O receio geral era de que o sucesso encobrisse o perigo e os alertas do declínio. Saímos de lá pensando em como seria possível perceber que uma organização aparentemente saudável enfrentava sérios problemas.
Parece ser cada vez mais real o fato de que grande parte dos líderes desconhece o problema vivido na sua organização. Em seu livro, Collins identifica cinco estágios no processo de derrapagem de uma instituição. O primeiro é a autoconfiança como fruto do sucesso. “Prestamos um desserviço a nós mesmos quando estudamos apenas sobre o sucesso”, afirma Collins. Uma pesquisa e análise acerca de empreendimentos, até mesmo na literaturas de liderança eclesiástica, mostra que poucos livros investigam as raízes do fracasso. Parece que existe no segmento cristão a presunção de que o sucesso é inevitável, razão pela qual não se torna necessário considerar as possíveis consequências de uma queda.
A confiança exagerada em si mesmos, nos sistemas que criam ou na própria capacidade para resolver tudo faz com que os líderes não enxerguem seus pontos de fraqueza. Subestimar os problemas e superestimar a própria capacidade de lidar com eles é autoconfiança em excesso. A ganância e a busca desenfreada por mais é outra das principais situações que derrubam um grupo ou organização. Geralmente, quando se entra nesse processo descontrolado, abandonam-se os princípios sobre os quais a entidade foi constituída.
A busca pelo crescimento exagerado é o segundo estágio que antecede a derrocada, seja de uma organização secular ou de um ministério cristão. Muitos líderes tornam-se cegos pelo êxtase do expansionismo. Constantemente surge uma necessidade em tais líderes de mostrarem-se capazes, e eles não conhecem outra forma de fazer isso que não seja tornando seus empreendimentos maiores, independente das consequências. É a incessante idéia de que tudo tem que crescer e crescer. Todavia, impressiona o fato de que acobrança de Jesus aos seus discípulos estivesse relacionada à necessidade de fazer novos discípulos, e não de construir grandes organizações. Ele parecia saber que discípulos bem treinados em cada cidade e povoado dariam conta de conduzir o movimento cristão de forma saudável. Talvez Jesus temesse exatamente o que está acontecendo hoje: a sistematização do movimento cristão, sua centralização e expansão tão somente para causar uma impressão.
O terceiro estágio de declínio identificado por Collins é desencadeado quando líderes e organizações ignoram ou minimizam informações críticas, ou se recusam a escutar aquilo que não lhes interessa. A negação dos riscos é um perigo iminente – e riscos não levados a sério são justamente aqueles que, posteriormente, causam grandes estragos na organização. É preocupante, para Collins, quando organizações que baseiam suas decisões em informações inadequadas. Em meu ministério de liderança, cedo aprendi a temer conselhos que começam com expressões como “Estão dizendo” ou “O pessoal está sentindo”. Prefiro valorizar dados precisos, vindas de pessoas confiáveis, sábias, que se engajam na tarefa de liderar a comunidade com sensatez. Isso nos possibilitou caminhar ao lado de gente que jamais imaginávamos que caminharia conosco. Nada me foi mais valioso do que receber, delas, informações que me ajudaram a conduzir minha congregação.
O estágio quarto começa, escreve Jim Collins, “quando uma organização reage a um problema usando artifícios que não são os melhores". Ele dá como exemplo uma grande aposta em um produto não consolidado, o lançamento de uma imagem nova no mercado, a contratação de consultores que prometem sucesso ou a busca de um novo herói – como o político que vai salvar a pátria ou o executivo que em três meses vai tirar a empresa do buraco. Eu me lembro de épocas nas quais eu estava desesperado por vitórias que fariam com que minha igreja deixasse de caminhar na direção em que estava caminhando – para o abismo. Ao invés de examinar o que nossa congregação fazia nas práticas essenciais de serviço ao povo, centrada no serviço a Cristo, fui tentado a me concentrar em questões secundárias: cultos esporádicos de avivamento, programações especiais, qualificação de nossa equipe de funcionários. Hoje eu vejo o que tentei fazer: promover salvação de vidas através de publicidade, uma grande apresentação o um excelente programa. Graças a Deus, aprendi – assim como aqueles ao meu redor – que artifícios assim não funcionam. O que funciona é investir em pessoas, discipulá-las, conduzi-las a Jesus e adorá-lo em espírito e em verdade, fazendo com que as coisas estejam em seu devido lugar.
Collins menciona ainda o estágio cinco da decadência, que é o da rendição. Se as coisas saem do eixo organizações como igrejas tendem a perder a fé e o espírito. Penso que o templo em Jerusalém deve ter ficado dessa forma quando Jesus se retirou de lá e disse que não voltaria àquele lugar. Ele estava antecipando o dia, que estava por vir, quando não restaria pedra sobre pedra ali. Não muito tempo atrás, eu estava em frente ao templo de uma igreja no País de Gales. Na porta, estava a seguinte placa: "Vende-se". Uma outra placa indicava que aquele prédio havia sido construído no período do grande avivamento britânico, no século 18. Agora, o prédio estava escondido entre a vegetação, completamente abandonado.
Quando começa a morte de uma organização? Quem perdeu os sinais que indicam vida? Quem abandonou os princípios essenciais? Quem não entendeu as informações? Quem está correndo, completamente perdido no meio da multidão, sem saber pra onde ir? Essas são boas perguntas. Se ignoradas, a igreja cairá.

Fonte:http://cristianismohoje.com.br/interna.php?id_conteudo=115&subcanal=46

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Criação ou reprodução?

extraído de: http://www.ogalileo.com.br/cristianismo/artigos/o-espirito-santo-e-criador-e-criativo-e-nao-copista-e-reprodutor de Yuri Steinhoff...

Conversemos um pouco sobre duas vertentes correntes hoje em dia na música cristã, principalmente a evangélica. São duas correntes que, inclusive, chegam a “trocar farpas” entre seus adeptos e simpatizantes. Mas vale ressaltar aqui o meu posicionamento crítico frente às duas e onde estou me pautando. Primeiramente não estou condicionando-as à ação ou não do Espírito Santo e à soberania divina, e me pautarei em princípios musicais e técnicos. Não “julgarei” a relação com a subjetividade e individualidade. Não obstante será uma breve análise da superficialidade musical, e não da poética. E nisso continuando pelos vieses dos textos anteriores.




Primeiramente, é fato que a música cristã de hoje não colabora, em termos musicais, para uma evolução dela própria, seja qual segmento for. De um lado temos uma musicalidade evidentemente mais padronizada e extremamente influenciada pelos estilos musicais norte-americanos e europeus, ou melhor, a música “pop”. Nada contra o pop, pelo contrário, mas nós ainda não sabemos fazê-la. Os estilos musicais não são apenas formados pelos valores musicais, como ritmos e células rítmicas, direção melódica, caminhos harmônicos. Esses elementos são, sim, extremamente importantes e fazem a diferença quando empregados corretamente, porém, eles não são isolados. Há, para cada estilo, uma historicidade, uma contextualidade que não pode ser negada e muito menos desconhecida ou ignorada. Então existem vivências que não temos, enquanto brasileiros, e que são necessárias. É o que sentimos quando ouvimos um americano, por exemplo, tocando sambas. Por melhor que seja o músico, sentimos falta de algo. Ouça, por exemplo, Chick Corea tocando 500 miles high. Mesmo com brasileiros na gig (Airto Moreira e Flora Purim) sentimos falta de algo, é fato. E o nosso pop cristão acaba por ser pobre em harmonia e melodia e descontextualizado e sem historicidade. E o que é uma religião que não olha para o contexto de seus seguidores? E os seus cancioneiros (os que fazem as canções – para mim, compositor é aquele que fez um curso de Composição e Regência, assim como médico é o que fez Medicina, por isso o curandeiro não é médico, e por aí vai...) que se esquecem ou ignoram a realidade social que os circunda? Ignoram, por muitas vezes, descaradamente o nosso próprio idioma, infeccionando nossos ouvidos com erros grotescos e forçosos de prosódia (as temidas silabadas) e pronúncias esdrúxulas e carregadas de mau gosto. Talvez achem que estou exagerando, mas reparem como insistem em dizer Raleluia ao invés de Aleluia, ou também Jêsus, e não Jesus (oxítona), Amôr (com uma batata na boca), e outras coisas mais, é só escutar. É a pasteurização musical, que destrói toda a contextualidade e a brasilidade. É uma música de tendências, que segue a moda. É isso que se quer expressar? Que você faz parte da moda? Lembrando que a moda nos remete a consumismo desenfreado e, consequentemente, a uma série de questões sociais que não nos cabem aqui discutirmos, em princípio. É o simplismo falando mais forte que a simplicidade. É uma cópia (mal feita) e não uma criação.



O Espírito Santo é Criador e Criativo, e não copista e reprodutor.



Por outro lado temos uma corrente de músicos na igreja que se acham mais sofisticados e até capazes de surpreenderem Deus porque sabem executar um acorde com décima terceira ou um dominante substituto! Pura alienação também: floreios harmônicos em detrimento da simplicidade artística, criativa e criadora. Ressalte-se que esses floreios harmônicos são apenas enxertados, e não pensados. As funções de cada nota alta e seus caminhos que geram (ou deveriam gerar) melodias não são pensados, e nem analisados e nem contextualizados. São apenas notas dentro de acordes, nada mais. Como se fosse mais difícil tocar uma tríade do que uma centopéia de notas! Não é. O mais difícil é entender o porquê de tais notas. Não são para “enfeitar”. Não são para dificultar. São notas, meramente sons, e que devem ser trabalhados em sua peculiaridade. Não pode haver um paradigma da dissonância. O gesso da prepotência. E falo apenas da dissonância não tratada, da dissonância jogada em “shapes” e padrões. Não a dissonância que naturalmente surge. Não aquela dissonância da Criação, já presente e apenas sendo escutada. A Criação é tratada, assim, com descaso e descuido. E “achar” (o achismo mesmo) que faz música superior é balela, é julgar, e esquece-se que há uma trava cheia de padrões que também engessam. Também é uma cópia mal feita. Padrão atrás de padrão.



Porém notamos que Deus, dentro da sua infinita misericórdia, usa ambas as vertentes para alcançarem corações. Então não há pior e nem melhor música. Há apenas a sinceridade em servir. Mas, e a sinceridade em dar o melhor? A sinceridade em fazer da melhor forma? A sinceridade em transcender? Em buscar?



Porque os músicos cristãos não estudam música realmente? Chegam a um nível mediano, para não dizer medíocre, e param por aí.



Até quando teremos musicas arcaicas?



Quando nos abriremos realmente para todas as possibilidades musicais que nosso Pai Criador que nos possibilita?



Infelizmente a nossa criatividade cristã apenas está calcada em padrões musicais. Encaixotamos a musicalidade oriunda de Deus em nossos padrões, e apenas nos conformamos.



O Espírito Santo é Criador e Criativo, e não copista e reprodutor.



Quando nós escutaremos música?








Silabada: erro de prosódia
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